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Travessia da Serra Fina – Relato completo

Nas costas 20kg entre equipamentos, comida e água, ao lado os loucos que me acompanharam nesses 4 dias (Gisely do blog A Montanhista, Rafael do blog Seu Mochilão, Analu, Fábio, Erika, Camila e Anderson) e pela frente a travessia que muitos dizem ser a mais difícil do Brasil, foi assim que começou a aventura na famosa cadeia de montanhas da Serra Fina.
Já conferiu nosso primeiro post sobre essa travessia? Lá você confere um pouco sobre a preparação e a organização para um trip como essa: Travessia da Serra Fina – Preparação e Organização

PARTIU TRAVESSIA!

O nosso grupo se encontrou no terminal rodoviário do Tietê em São Paulo para pegar o ônibus com destino a Passa Quatro – MG às 23:30hrs. Já na rodoviária encontramos com outros grupos que fariam a Serra Fina – num feriado de Corpus Christi já era de se esperar a travessia mais congestionada que Imigrantes no Reveillon!
Dormi bem toda a viagem, passei direto na parada e só acordei quando chegamos em Passa Quatro por volta das 4 horas da manhã. O Tiago do blog Fé no Pé já estava lá esperando a gente pra pegar o resgate que nos levaria até o ínicio da trilha. O Edinho do resgate também já estava lá – falar nele, eita cara doido esse, do bem, mas doido e esquecido! – (o contato dele você encontra no final do post).
O resgate nos levou até próximo do início da travessia, – até agora não acredito como aquela Kombi subiu até lá carregada de gente e de mochila pesada! – lá pagamos o Edinho e combinamos nosso resgate de volta para Cruzeiro.

DIA 1 – Toca do Lobo ao Bambuzal (Base do Capim Amarelo)

Saímos da Fazenda Santa Amália em direção a Toca do Lobo ainda no escuro, atravessando o pequeno riacho começamos oficialmente a travessia. De cara já começamos em uma subida pela mata fechada que logo se abriu revelando as lindas cadeias da Serra da Mantiqueira junto com o nascer do sol. – montanha e nascer do sol, só pode dar uma coisa, ou várias… muita foto! – Após a breve parada para fotos, continuamos tocando montanha acima agora em uma tradicional paisagem, a crista fina das montanhas que chegam a apenas alguns metros de largura (razão do nome da travessia) em direção ao Alto Capim Amarelo (2.392 metros), primeiro cume da travessia. O mais bacana desse primeiro dia é poder ver a progressão toda apenas olhando para trás, as vezes é até difícil acreditar ter andado tanto.

Amanhecer no primeiro dia na Serra Fina

Amanhecer no primeiro dia na Serra Fina

Olhar para trás é ver todo o caminho percorrido. Tudo isso!?

Olhar para trás é ver todo o caminho percorrido. Tudo isso!?

Subir o Capim Amarelo foi digamos… tenso. Primeiro porque é pirambeira que não acaba mais, e com peso de mochila cheia nas costas o esforço físico dessas escalaminhadas fica ainda maior, e segundo que o grupo estava preocupado com a disponibilidade de lugar para acampar, já que as áreas de camping em todo o caminho são bem escassas, e com a quantidade de gente ali, – sem falar na presença dos renomados montanhistas Maximo Kausch e Pedro Hauck do Gente de Montanha que estavam liderando um grupo por lá também – realmente era uma situação preocupante. Então o Fábio e o Anderson resolveram sair na frente do grupo para procurar um cantinho para o resto. Como era de se esperar, o Capim Amarelo já estava lotado e tivemos que descer para a base do pico – pensa numa descida íngreme, só de pensar meu joelho já dói de novo! – lá montamos acampamento e encerramos o dia em um lugar bem apertado em meio ao bambuzal por volta das 14:00hrs.

Subindo o Alto Capim Amarelo

Subindo o Alto Capim Amarelo

Se olhar pra trás dá orgulho, olhar pra frente (ou melhor, pra cima) dá até medo! Alto Capim Amarelo com 2.392 metros

Se olhar pra trás dá orgulho, olhar pra frente (ou melhor, pra cima) dá até medo! Alto Capim Amarelo com 2.392 metros

DIA 2 – Bambuzal (Base do Capim Amarelo) à Pedra da Mina

A primeira noite foi bem tranquila, o local era bem protegido dos ventos e não passei muito frio dentro da barraca. – só nos pés!

O segundo dia começou bem cedo, acordei às 3:30hrs e por volta das 4:30hrs saímos – isso foi a melhor coisa que fizemos, já que saímos na frente de muitos grupos que ainda estavam no 5º sono – deixando o Capim Amarelo para trás passamos pelo Maracanã, uma grande área de camping que obviamente estava lotada, a caminhada em direção a Pedra da Mina passa por trechos de mata fechada, – leia-se bambu pra caramba que te agarram com toda a força – o que acaba dificultando a caminhada um pouco.

Deixando o Capim Amarelo para trás e encarando os chatos trechos de bambu

Deixando o Capim Amarelo para trás e encarando os chatos trechos de bambu

Atingimos a Cachoeira Vermelha, o segundo ponto de água da trilha, por volta da hora do almoço, aproveitamos para fazer um lanche, abastecer as camelbaks e garrafas, e lavar as louças sujas do dia anterior.

Deixando a Cachoeira Vermelha para trás rumo a Pedra da Mina

Deixando a Cachoeira Vermelha para trás rumo a Pedra da Mina

Da cachoeira para a base da Pedra da Mina foi uma caminhada suave pelas pedras admirando cada detalhe daquelas paisagens incríveis no horizonte da Mantiqueira. O céu, perfeito, sem nuvens, mas isso duraria só mais um pouco…

A imponente Pedra da Mina, com seus 2.798 metros

A imponente Pedra da Mina, com seus 2.798 metros

A subida para a Pedra da Mina, 5ª montanha mais alta do Brasil com seus 2.798 metros de altitude, foi relativamente suave apesar do desnível, sem trechos de escalaminhadas pesadas, atingimos o cume por volta das 13:30hrs. – E adivinha? Cume lotado de barracas, óbvio! Inclusive a da VIVO! – Foi só tempo de tirar algumas fotos e descer um pouco para uma área protegida logo abaixo do cume e procurar algum lugar de camping. Felizmente encontramos ótimas áreas bem protegidas e que permitiam especar as barracas na areia, coisa difícil por ali, já que na região em volta da Pedra da Mina o solo é predominantemente rochoso.

A subida para o cume da Pedra da Mina não é tão pesada, a paisagem aberta ajudava ainda mais

A subida para o cume da Pedra da Mina não é tão pesada, a paisagem aberta ajudava ainda mais, mas por  pouco tempo

Do cume da Pedra da Mina avista-se as lindas montanhas da Mantiqueira

Do cume da Pedra da Mina avista-se as lindas montanhas da Mantiqueira

Montamos as barracas com a ideia de deixar tudo no acampamento e subir de ataque ao cume da Mina novamente só para ver o pôr-do-sol, mas infelizmente, do nada, desceu uma névoa que encobriu TUDO – tchau pôr-do-sol, tchau paisagens, tchau calor – a temperatura baixou abruptamente e em plenas 4 horas da tarde já faziam cerca de 6ºC! O jeito foi dormir mais cedo.

DIA 3 – Pedra da Mina ao Bambuzal (Base do Cupim do Boi)

O noite foi como era de se esperar, GELADA. O saco de dormir com a manta por dentro e TODAS as minhas roupas até que deram conta do recado e novamente só senti frio mesmo nos pés.

Acordei às 3:30hrs novamente como combinado, sonhando com um nascer-do-sol no cume da Mina – continuei sonhando – botei a cabeça pra fora da barraca e a visibilidade era nula, sem falar no vento e o frio de rachar que estava lá fora. Impossível de sair, pensei. Ainda bem que o resto do grupo pensou a mesma coisa e voltamos a dormir para ver se a neblina e os ventos davam uma trégua.

Acordei novamente com a Gisely me chamando às 6:30 da manhã, o sol já tinha nascido mas a névoa e os ventos eram os mesmos. Não dava mais para esperar, já estava bem “tarde”, então resolvemos levantar acampamento assim mesmo. A barraca acordou totalmente molhada pela condensação mesmo com todas as janelas abertas, a mochila da Gisely tinha congelado e também estava encharcada, o dia não começou dos melhores.

Dia amanheceu nublado e com fortes ventos, barracas molhadas e mochila congelada

Dia amanheceu nublado e com fortes ventos, barracas molhadas e mochila congelada

Tudo pronto e dentro da mochila, começamos a subir a Pedra da Mina para voltar ao caminho da travessia. Se a situação no acampamento não era boa, lá em cima o negócio tava feio, várias vezes quase caí com a força dos ventos nos empurrando, sem contar na neblina que vinha junto e molhava aos poucos toda a mochila e roupas. A descida nessas condições ficou ainda mais perigosa, as pedras molhadas e os empurrões dos ventos nos castigaram até o fim, só parando quando chegamos no famoso e perigoso Vale do Ruah.

A descida da Pedra da Mina foi tensa, ventos fortíssimos e muita neblina

A descida da Pedra da Mina foi tensa, ventos fortíssimos e muita neblina

A primeira visão do Vale é incrível e lembrou cenários de Jurassic Park, ainda mais com a neblina que pairava sobre os altos capins que tomam todo o vale (esses capins é o que o fazem perigoso, já que é extramente fácil se perder ali). Ali é importante manter o grupo próximo e sempre com alguém usando GPS puxando a fila.

Primeira visão do Vale do Ruah

Primeira visão do Vale do Ruah

A trilha no Vale do Ruah se estende quase que sempre paralela ao rio que foi o nosso segundo ponto de água na trilha (e também o último até próximo do final da travessia), logo tivemos que nos abastecer 100% ali, para encarar o resto do penúltimo e o último dia. A trilha é realmente bem fechada, com o capim quase não se vê onde pisa, e para pessoas baixas como eu é bem fácil sumir ali no meio, o solo é encharcado e escuro, formando um barreiro só, é preciso tomar bastante cuidado por onde pisa. Saindo do Ruah volta o sobe e desce por entre os bambus que continuam nos puxando e agarrando – quanto amor!

É preciso caminhar com muito cuidado e atenção, o solo é encharcado e o capim muito alto

É preciso caminhar com muito cuidado e atenção, o solo é encharcado e o capim muito alto

Segundo e praticamente último ponto de água da travessia

Segundo e praticamente último ponto de água da travessia

Com a tarde chegando, voltou a preocupação do “onde vamos acampar?”. A ideia era continuar a trilha atingir o cume do Cupim do Boi e continuar mais um pouco procurando lugares antes de subir o Pico dos 3 Estados (esse era uma certeza que já estava lotado). Conseguimos uma área aberta em meio ao bambuzal logo depois de descer o Cupim do Boi, lugar bem protegido dos ventos e relativamente bom para acampar. Ali conhecemos o casal Rannier e Suellen que nos acompanharam no último dia de trilha.

DIA 4 – Bambuzal (Base do Cupim do Boi) ao Final da Travessia

A noite no quesito frio foi tranquila, a mais confortável da trip, provavelmente por termos acampado em uma área bem fechada, bem protegidos dos ventos gelados da montanha. Acordei as 3:30hrs novamente e ás 5 horas da manhã partimos rumo ao Pico dos 3 Estados com seus 2.665 metros de altitude, a 11ª montanha mais alta do Brasil.

A subida para o Pico é íngreme, no escuro a escalaminhada fica ainda mais difícil, para completar a pirambeira estava congestionada. Apesar disso a neblina que tomou conta do dia anterior e nos impediu de avistar qualquer paisagem, tinha sumido. O céu estava limpo e as cores do nascer do sol logo foram tomando a escuridão, formando composições espetaculares com as montanhas e as nuvens. O timing foi perfeito, alcançamos o cume dos 3 Estados minutos antes do espetáculo do nascer-do-sol, a vista para o Pico das Agulhas Negras e todo Itatiaia recompensam tudo – fotos, fotos, fotos e mais fotos – conseguir um bom lugar ali para admirar o sol foi difícil, o cume estava lotado e todos querendo o melhor ângulo, era até difícil de andar ali em cima, mas deu tudo certo! Última foto no marco dos 3 Estados e partiu montanha abaixo, tchau multidão!

Cume do Pico dos 3 Estados

Cume do Pico dos 3 Estados

Espetáculo do nascer do sol atrás das Agulhas Negras

Espetáculo do nascer do sol atrás das Agulhas Negras

serra fina 18

E pra quem achou que o último dia é moleza, só se enganou. Depois de subir os 3 Estados, começou novamente o tradicional sobre e desce pelas cristas da Serra Fina, a “última” grande piramba é o Alto dos Ivos (2.523 metros de altitude) que alcançamos por volta das 10:00hrs. Mais um pouco de bambu para não perder o costume enquanto descemos mais um pouco, e aí a vegetação vai mudando, os bambus dão lugar a uma mata mais densa – Graça a Deus!! – e a trilha segue passando pelo último ponto de água (rápida parada somente para abastecer o necessário) até o final da trilha, que termina no Sítio do Pierre. De lá ainda andamos até a BR 354 onde pegamos o resgate por volta das 14:00hrs que nos levou até a cidade de Cruzeiro.

Fim da travessia, no sítio do Pierre

Fim da travessia, no sítio do Pierre

Escolhemos ir por Cruzeiro devido a quantidade de gente na trilha que com certeza já teriam lotado os ônibus de Passa Quatro. Em Cruzeiro acabamos pegando os últimos lugares do ônibus para São Paulo. Depois da tão sonhada Coca-Cola de final de trilha, saímos às 17:30hr de Cruzeiro chegando às 22:00hrs em São Paulo.

Agradeço a Gisely pelo convite, e aos companheiros de travessia Rafael, Fábio, Analu, Camila, Erika, Anderson, Suelen e Rannier pelos ótimos momentos nessa incrível trip.

Cada perrengue, cada pirambeira, cada joelho perdido, cada bambu na cara valem a pena quando você recebe como recompensa as mais espetaculares vistas da Serra da Mantiqueira e a sensação de ter terminado essa linda travessia. Gratidão!

Keisuke Kira
Sobre Keisuke Kira

Paulistano, estudante de biologia, amante de fotografia. Adora a cidade mas prefere a montanha. Como todo biólogo ama estar no mato. Curte um pedal, trekking, e viagens nem se fala! Mais posts

8 Comments on Travessia da Serra Fina – Relato completo

  1. Parabéns pela travessia! Um dia tb faço! Abraço

  2. Que bacana!
    Esta travessia está no topo da minha lista de pendencias. 🙂
    Pena estarem cobrando valores muito altos para fazer a travessia. Mas com a demanda aumentando acho que um dia fica mais acessível.
    Sucesso ai aventureiros!
    Big abraços.
    Diego.

    • Quando der faça sim Diego, é uma travessia incrível! Aliás, a Mantiqueira toda é sensacional não é mesmo?

      Abraços amigo!

  3. Ótimo relato. Parabéns!
    Acho que a Serra Fina é um dos grandes objetivos de quem está iniciando no trekking.
    Pratico esta atividade há alguns anos, mas não em serras como esta. Sempre em terrenos mais planos, no serrado e no pantanal, sendo mais claro. Esta serra está na minha agenda, aguardando o momento certo.Enquanto isso vou enriquecendo minha biblioteca com esses bons relatos.
    Valeu!

  4. Keisuike, minha dúvida é de novato, mas sempre fico com esta dúvida. Como você lidava com a barraca molhada? Você acordava com ela toda molhada e colocava a Nepal dentro da mochila? Durante o dia, tirou ela para secar? Outra coisa: O quarto da barraca internamente ficava seco, ok? Ao embalar a barraca, não acabava que a parte externa molhava a parte interna que estava seca? Valeu pelo relato!

    • Olá Marcio! O fato da barraca acordar molhada é bem comum, o jeito é dar uma batida nela, secar o excesso, dobrar e por na mochila, normal! Abraços!

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